CAUSAS
DO SÍNDROMA DE RETT
A
etiologia do Síndroma de Rett permaneceu desconhecida até 1999. A ocorrência
no sexo feminino sugeria uma base Genética, nomeadamente uma mutação
dominante no cromossoma X com efeito letal no sexo masculino (1).
Neste contexto o facto da maioria dos casos serem esporádicos, sem outros
familiares afectados, seria compatível com o aparecimento de neo-mutações (1).
Em 1998 os estudos de ligação génica envolvendo os raros casos familiares de
síndroma de Rett sugeriram a presença de um locus
na região Xq28 (4). A pesquisa de mutações em vários genes
candidatos culminou na descoberta recente de mutações no gene MECP2 em várias
crianças com síndroma de Rett (5).
O gene MECP2 codifica a proteína MeCP2 («methylCpG binding protein 2») que tem função de inactivação de outros genes através de mecanismos de repressão da transcrição envolvendo a ligação a regiões CpG metiladas (5). O síndroma de Rett resultará provavelmente de uma expressão excessiva de alguns genes que habitualmente se encontram silenciados. A identificação e a avaliação da expressão dos possíveis genes alvo da proteína MeCP2, nomeadamente ao nível do sistema nervoso central, poderão, no futuro, vir a permitir uma melhor elucidação dos mecanismos patogénicos do síndroma de Rett. Uma outra possibilidade é a de desenvolver uma terapêutica que permita normalizar a regulação dos genes afectados (5).
Um
estudo recente identificou mutações no gene MECP2 em 80% dos casos de síndroma
de Rett clássico (esporádicos ou familiares) e em 20% dos casos com características
sugestivas deste diagnóstico (9). Neste grupo de doentes, a
gravidade clínica parece correlacionar-se com o tipo de mutação. Uma outra
casuística (10) identificou mutações em 45% dos casos esporádicos
mas em nenhum dos casos familiares estudados. Assim, as mutações no gene MECP2
representam uma proporção importante dos casos de síndroma de Rett mas
existirão provavelmente outros factores ainda não identificados na etiologia
desta doença. Por outro lado foi demonstrada a presença de mutações no gene
MECP2 em familiares de doentes com síndroma de Rett (dois do sexo feminino, uma
com perturbações neurológicas discretas e um do sexo masculino com
encefalopatia congénita) (11). Estes dados sugerem que as mutações
no gene MECP2 não se limitem ao síndroma de Rett e possam ser a causa de situações
com um espectro fenotípico mais alargado (11).
No
momento actual, a descoberta de mutações no gene MECP2 responsáveis pela doença
permite a sua utilização como método eficaz de confirmação precoce da doença,
o estabelecimento do prognóstico e a previsão de um baixo risco de recorrência
em irmãos de casos isolados (99,5% dos casos são esporádicos (11)),
o que dificilmente poderá ser garantido se houver incerteza ou ausência de
diagnóstico, e ainda a sua aplicação ao diagnóstico pré-natal. No futuro,
atendendo às características do síndroma de Rett, nomeadamente à existência
de um intervalo livre assintomático, será possível admitir a esperança de
que os progressos na compreensão da doença possam culminar no desenvolvimento
de intervenções terapêuticas pré-sintomáticas eficazes.